BEM VIVER TÁ ON — Cartografias Educomunicativas das Juventudes

 

Há lugares pelos quais passamos todos os dias e que, mesmo assim, pouco conhecemos.

A rua da escola. A praça da frente. O comércio da esquina. As casas antigas que ainda resistem entre tantas construções novas. O córrego que um dia talvez tenha sido diferente. As árvores que estavam ali antes de nós. As pessoas que chegaram, as que partiram e aquelas que ajudaram a construir a história daquele lugar.

Quantas vezes perguntamos aos nossos estudantes: você conhece realmente o lugar onde vive?

Foi pensando nisso que nasceu uma nova inquietação e, junto com ela, uma ideia que quero transformar em estudo e ação: BEM VIVER TÁ ON — Cartografias Educomunicativas das Juventudes.

Quero falar de pertencimento.

Mas não daquele pertencimento que aparece apenas nos textos bonitos ou nas frases prontas. Quero falar do pertencimento que nasce quando conhecemos a história de um lugar, quando descobrimos quem viveu ali antes de nós, quando ouvimos as memórias dos moradores, quando percebemos as mudanças da paisagem e começamos a olhar para aquilo que sempre esteve diante dos nossos olhos de uma maneira diferente.

Talvez uma praça deixe de ser apenas uma praça quando descobrimos as histórias que aconteceram ali.

Talvez uma rua deixe de ser apenas um caminho entre a casa e a escola quando conhecemos quem vive nela, como ela era anos atrás e quais transformações atravessaram aquele espaço.

Talvez até os problemas do bairro ganhem outro significado quando os jovens percebem que podem falar sobre eles, registrar, investigar, entrevistar pessoas, produzir informação e participar das discussões sobre o lugar onde vivem.

É aí que a educomunicação entra com muita força.

A Imprensa Jovem, o Grêmio Estudantil e os demais estudantes podem se tornar pesquisadores do próprio território. Com celulares, câmeras, cadernos, microfones, fotografias antigas, mapas e, principalmente, muita curiosidade, podemos sair em busca das histórias que nem sempre aparecem nos livros.

Perguntar aos moradores: Como era aqui antes?

Perguntar aos estudantes: Como você enxerga este lugar hoje?

E perguntar coletivamente: Como gostaríamos que ele fosse no futuro?

Entre essas três perguntas existe um mundo inteiro de possibilidades.

Podemos construir mapas afetivos, entrevistar moradores antigos, registrar histórias de famílias que chegaram de outros lugares e passaram a fazer parte da comunidade, comparar fotografias antigas e atuais, identificar espaços importantes para os jovens, ouvir diferentes gerações e descobrir aquilo que as pessoas gostam no bairro — e também aquilo que gostariam de transformar.

É nesse caminho que quero aproximar o projeto da ideia do Bem Viver.

Para mim, trabalhar o Bem Viver na escola não significa apresentar aos estudantes uma definição pronta. Significa provocar perguntas.

O que é viver bem para você?

É ter uma praça cuidada? Poder brincar na rua? Ter árvores? Sentir-se seguro? Conhecer os vizinhos? Ser respeitado? Ter sua cultura reconhecida? Poder falar e ser ouvido? Ter espaços para os jovens? Cuidar das pessoas e também do ambiente?

Talvez as respostas sejam muito diferentes. E justamente aí está a riqueza.

Quando começamos a pensar sobre o Bem Viver, também começamos a perceber que uma comunidade não é formada apenas por ruas, casas e prédios. Ela é feita de memórias, relações, culturas, afetos, conflitos, encontros, sonhos e pessoas.

O projeto terá uma aproximação com o GT Emergências Climáticas nos 4 Cantos da Cidade, porque questões ambientais também fazem parte do território e da qualidade de vida. Mas quero ampliar esse olhar.

Desta vez, quero colocar no centro as juventudes, suas histórias, suas perguntas e a maneira como enxergam o lugar onde vivem.

Quero descobrir o que acontece quando entregamos o mapa para os estudantes e dizemos:

“Agora contem vocês esta história.”

Talvez surjam lugares que nós, adultos, nunca percebemos.

Talvez apareçam histórias que estavam quase esquecidas.

Talvez os estudantes descubram que também fazem parte da memória daquele território.

E talvez aconteça algo ainda mais importante: ao conhecer melhor o lugar onde vivem, eles comecem a perceber que não são apenas moradores ou estudantes que passam por ali todos os dias.

São parte daquela comunidade.

E quem se reconhece como parte também pode cuidar, participar, comunicar, questionar e transformar.

É isso que quero investigar com o BEM VIVER TÁ ON.

Porque antes de imaginar uma comunidade diferente, talvez seja necessário conhecê-la.

Conhecer suas histórias.

Escutar suas pessoas.

Reconhecer suas potências.

Olhar para seus problemas.

E permitir que as juventudes também possam dizer:

“Este lugar também é meu. Eu conheço sua história. Faço parte dela. E posso ajudar a construir o que vem depois.”

Daniely Silva Duarte e Patrícia Fernandes



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